domingo, 14 de setembro de 2014

Moradores do Junco são figurantes do filme guerra de canudos e falam sobre o assunto

Recife, Quinta-Feira, 2 de Outubro de 1997

Figurantes assistem a filme na ruaJosélia Menezes
Da Sucursal de Petrolina

JUAZEIRO(BA) - O pequeno e tranquilo vilarejo de Junco do Salitre, situado a 37 quilômetros desta cidade. na divisa com Pernambuco, voltou a ser o centro das atenções antontem à noite. O lugar, que serviu de única locação para o filme Guerra de Canudos, de Sérgio Rezende, durante quatro meses, foi palco da pré-estréia especial para os figurantes, gente simples do povoado. A tela, montada a céu aberto sobre o ônibus do projeto itinerante Cinema Voador, do governo de Brasília, foi o recurso encontrado para suprir a falta de uma sala de exibição.
Essa foi a segunda exibição de Guerra de Canudos no sertão baiano antes do lançamento oficial em todo o país, amanhã. A primeira, dia 25, foi na própria Canudos, a 400 quilômetros de Juazeiro, onde aconteceu o drama real de Conselheiro e seus seguidores.
Cerca de 350 pessoas assistiram a exibição, que durou duas horas e quarenta minutos. Uma estrutura de arquibancada foi montada pelo pessoal do Cinema Voador no final do dia com capacidade para 300 pessoas. Muitagente não se incomodou de se sentar no chão de terra batida. Alheios aos desconforto, alguns se acomodaram em caminhonetes e caminhões. A prefeitura de Juazeiro colocou à disposição da população cinco ônibus, com saídas do centro de Cultura João Gilberto, fazendo o percurso pelas comunidades próximas.
" A expectativa das pessoas foi muito grande. Eles queriam, afinal, ver o resultado do próprio trabalho", disse a produtora Selma Santos, que veio de Salvador especialmente para a ocasião. O resultado final foi, inegavelmente, aprovado pelo povo de Junco do Salitre.
" Achei bom. Cheguei a chorar no começo", confessou a estudante Cristiana Santos, 17 anos, que trabalhou nas figurações durante quatro dias, junto com mãe Maria Ferreira dos Santos e dois irmãos. Já o agricultor Paulo da Costa Ribeiro, 71 anos, que nunca tinha assistido um filme , afirmou que valeu a pena a experiência como "ator". É ele que está na torre da igreja quando as tropas atacam Canudos. A sua fala no filme ainda está na ponta da língua:" Eles estão vindo ali", relembra.
O lugar, escolhido por Sérgio Rezende depois de sete mil quilômetros de peregrinação pelo Brasil afora, tem cerca de 300 habitantes. São agricultores e pequenos criadores. Quase todos - cerca de 250 - fizeram alguma ponta na super-produção. " Eles eram extremamente disciplinados, maravilhosos", conta Péricles Palmeira, produtor de elenco e coordenador de figuração do set de filmagem. Ele realça o desempenho do garoto Eronaldo, de 8 anos, que faz o personagem Crispim. Morador de Juazeiro( esteva em férias em Junco do Salitre, na época das filmagens), ele foi a ausência mais sentida pelos produtores.
"Apesar de analfabeto, ele demonstrou uma inteligência formidável. Pegava as orientações com uma surpreendente rapidez", recorda o produtor. " A cena em que ele pega um rifle para matar um soldado, foi repetida cinco vezes, mas ele nunca errou. Era sempre perfeito, enquanto técnicos e atores falhavam", afirma.
Como lembrança das filmagens, que movimentou o cotidiano previsível e a economia local, além do filme, restam apenas duas casas erguidas que faziam parte do cenário. O resto foi consumido pelo fogo nas últimas cenas do filme.
Perpétua Conceição da Silva, 37 anos vividos em Junco de Salitre, participou de dois dias de gravação.As lembranças que ficaram são as melhores. "Era como se fosse uma grande brincadeira que falava de gente como a gente", define. um dos figurantes que se destacaram foi Ana Maria Abdias,17 anos, grávida durante as filmagens. Sua voz serviu de inspiração par o sotaque de Cláudia Abreu, que faz a filha do ator Paulo Betti. Ela conta que caso o nenên tivesse nascido menina, receberia o nome de Luísa, em homenagem à personagem de Cláudia Abreu. Nasceu homem.
Segundo o produtor Péricles Palmeira, foram utilizados cerca de 4.500 figurantes. Teve dia em que chegou a utilizar 680 pessoas em uma cena. "Foi complicado, mas a disciplina desse pessoal foi fundamental para que o resultado fosse bom", explica. O ator Dodysó, que faz o Pajeú, tem dez anos de teatroem Salvador e estreou no cinema em Guerra de Canudos. Ele destaca o calor humano do povo de Junco de Salitre e a importância de ter trabalhado com Sérgio Rezende. Na próxima semana, ele começa a filmar o curta-metragem Canudos Numa Longa Estrada, de Carlos Pronzao. Lá mesmo onde Conselheiro fez história.
Acessado em: http://www.dpnet.com.br/anteriores/1997/10/02/viver4_0.html

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